Práxis, empreendedorismo e gestão eclesial – I

Peter Drucker caracteriza os empreendedores como aqueles que aproveitam as oportunidades para promover mudanças, exercitando sua criatividade. Portanto, pessoas com “senso de oportunidade” e iniciativa. Para obterem sucesso, devem mobilizar recursos humanos e materiais e valorizar a interdisciplinaridade do conhecimento e da experiência.

Falar sobre empreendedorismo é um tema que permite conceber o desejo de vislumbrar as novas ou renovadas formas de administrar. É um caminho exigente quando o sujeito concebe um valor que permita unir ideias, estratégias e ações que levem a instituição a um destaque que intensifique sua participação como referência no mercado ou empresarial. Essa constituição das mais variadas atitudes empreendedoras somam-se em um universo não só corporativo, mas pode se aplicar no universo eclesial. Isto significa que aos olhos de muitos empreendedores, a Igreja pode também criar suas formas de conquistar esse virtuoso e engrandecedor movimento que potencializa a capacidade de cumprir uma valiosa práxis cristã e o envolvimento do gestor eclesial nas acepções produtivas de um empreendedorismo focado no bem comum.

Nesse sentido, uma ética baseada em princípios cristãos cria uma postura que acrescenta consideráveis soluções para a comunidade eclesial, pois ajuda a discernir como e quando investir em práticas empreendedoras. Sabe-se que em diversas circunstâncias como situações adversas e pontuais na administração de bens, controladoria financeira, captação de recursos, etc, o gestor poderá discernir os aspectos adequados para o empreendedorismo.

Empreendedorismo: conceito

Uma reflexão pertinente a partir do tema, em linhas gerais, recomendo seguir a explicação fundamentada pelo teólogo e escritor Afonso Murad, mostrando alguns conceitos obre o empreendedorismo. Segundo Murad, o termo “empreendedor” (entrepreneur) surgiu na França, com Richard Cantillón, um banqueiro de família de classe alta, no contexto de criação e gestão de novos negócios. No início do século 19, o economista francês Jean-Baptiste Say conceituou o empreendedor como o indivíduo que move recursos econômicos para alta produtividade e retorno do investimento. Estaria assim no centro do processo de produção e distribuição. No século passado, o economista e professor austríaco Joseph Schumpeter define-o como quem reforma o processo “criativo-destrutivo” do capitalismo, por meio da inovação e da combinação dos fatores de produção. Schumpeter, defensor incondicional da economia de mercado, chega a afirmar que o homem de negócios ou empreendedor seria “o impulso fundamental que põe e mantém em funcionamento a máquina capitalista, que procede dos novos bens de consumo e métodos de produção” (SABINO, 2013).

Nos últimos anos, Peter Drucker caracteriza os empreendedores como aqueles que aproveitam as oportunidades para promover mudanças, exercitando sua criatividade. Portanto, pessoas com “senso de oportunidade” e iniciativa. Para obterem sucesso, devem mobilizar recursos humanos e materiais e valorizar a interdisciplinaridade do conhecimento e da experiência. Nos Estados Unidos, surgiu a educação para o empreendedorismo nas Instituições de Ensino Superior de “Management” e “Marketing”. Philip Kotler, a mais importante figura do marketing contemporâneo, identifica o empreendedor como aquele que tem uma postura diferenciada, cria seu próprio negócio e mantém relevantes seus produtos e serviços, em mercados de constante mutação (KOTLER, 2003).

O empreendedorismo é compreendido ainda de maneira ampla como “uma forma de ser”, caracterizada como ter sonhos e se empenhar em realizá-los, por meio de uma metodologia adequada. Transforma o conhecimento em valor, de forma a beneficiar a pessoa e também a sociedade. Nesta linha se move o autor brasileiro Fernando Dolabela, com sua “pedagogia empreendedora” (DOLABELA, 2003).

No Brasil, o empreendedorismo ganhou proeminência a partir dos anos 90. Com a queda dos níveis de emprego, a privatização de muitas empresas estatais e o fim da perspectiva de trabalho “para a vida toda”, o empreendedorismo se tornaria a saída.  Começou-se a dar atenção às empresas de pequeno porte, dado seu potencial empregador de mão de obra e importância para a economia.  Associou-se o (micro) empresário à figura do empreendedor. Acontece, então, um “surto midiático” em torno do empreendedorismo, reforçado pela criação de programas de treinamento, linhas de crédito, revistas especializadas e eventos temáticos (ÉSTHER, 2014).

Por extensão, o termo “empreendedor” também é utilizado para o empresário ou gestor de grande organização, que se notabiliza pelo sucesso de suas iniciativas. Hoje, “empreendedor” se tornou uma palavra poderosa, que confere status. Quem não gosta de ver seu nome associado a este adjetivo? Para tanto, é importante manter sempre o discernimento para que esse status contemple os ideais com equilíbrio, ética, bom senso e valores respeitando seu campo de atuação. Empreender também é sinônimo de construir pontes com reconhecimento e mérito para as conquistas, verdadeiramente, favoráveis em vista do engrandecimento pessoal e comunitário.

 

Referências
BAGGENSTOSS, Salli, DONADONE, J. Cesar. Empreendedorismo social: reflexões acerca do papel das organizações e do estado in: Gestão e sociedade · Belo Horizonte · volume 7 · número 16 · p. 112-131, janeiro/abril 2013.
DOLABELA, F. Pedagogia empreendedora. São Paulo: Cultura, 2003.
ÉSTHER, A. Brigato. Empreendedorismo: Contexto, Concepções e Reflexões. Comunicação no VII Encontro de Estudos Organizacionais da ANAPAD (2014).
DRUCKER, P. Administração de Organizações sem fins lucrativos. São Paulo: Pioneira, 2006.
KOTLER, P. Marketing de A a Z. São Paulo: Campus, 2003.
MURAD, A. Gestão e Espiritualidade. São Paulo: Paulinas, 2010.
SABINO, G. Tomé. Empreendedorismo: reflexões críticas sobre o conceito no Brasil.

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